Leonina Heringer







 
Vinhetas de uma coleção intitulada
 
“Esta vida Americana...”
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Coisas a Fazer

           Para se chegar ao quarto andar daquele prédio no formato de uma caixa comprida, colocada na posição vertical, com varandas em forma de gavetas em cada apartamento, no centro de Boston, eu apenas tinha que dizer o meu nome ao concierge , encarregado da portaria, o qual me indicava o elevador. A parte mais difícil era o "knock-knock" (toque- toque) na porta do apartamento. "Eu tomo remédio para sinusite; caso eu não ouça a campainha, bata na porta com força", o dono havia me dito. Algumas vezes, eu levava meia hora batendo na porta, até que o agradável rapaz de seus trinta anos, olhos inchados de dormir de dia, viesse me receber `a porta. A porta, por sua vez, tomava algum tempo para ser aberta. Tinha umas três trancas, uma barra de ferro e umas duas correntes, além da fechadura normal. Eu diria que este era um apartamento realmente seguro. O rapaz era dono, junto com um cunhado, de um clube noturno no Fenway, o que explicava o fato de ele dormir durante o dia. Viajava sempre a negócios para a Flórida e era muito generoso comigo. O preço que lhe havia dado para limpar o apartamneto, era quarenta e cinco dólares, mas, `as vezes, ele me dava sessenta ou noventa e, na maioria das vezes, dizia "limpa só o banheiro e a cozinha" ou "só a cozinha, o banheiro e a sala", onde havia um lindo aquário de água salgada com peixes exóticos. `As vezes ele usava a palavra “skip” (saltar), que era nova para mim, mas da qual logo aprendi o significado. Eu gostava do "skipping game" (jogo de saltar partes), isto é, de ele pedir para limpar só algumas partes da casa, talvez uma maneira de me compensar pelo fato de ter que ficar "knock-knocking" (toque-tocando) na porta até que ele acordasse. Durante algum tempo, limpei também o apartamento da irmã dele, que morava no mesmo prédio e cujo marido era sócio no clube noturno. Isto ajudava bastante, pois ela mesma se encarregava de acordá-lo para mim. Mas durou pouco, pois, do momento em que o apartamento ficou bem limpo, ela me disse que esperasse até que ela ligasse, e nunca mais ligou.
          Mas eu continuava feliz pelo meu "knock-knock" (toque-toque) na porta do irmão dela. Estava começando minha carreira de "house cleaner" (faxineira), ele pagava bem, além de limpar só este ou aquele cômodo, uma coisa rara nas outras casas onde eu trabalhava. O rapaz era simpático e estava sempre me agradecendo pelo meu bom trabalho. E não há nada melhor para encorajar um trabalhador, especialmente um iniciante, do que a expressão "good job".
          É verdade que, de vez em quando, ele parecia estar "com a macaca", pois, um dia, ouvi-o gritar para o rapaz de uns dezenove anos que morava com ele, "Do you like the money, don't you?" (Você gosta do dinheiro, não gosta?) Fiquei surpresa e confesso que tive um pouco de medo, especialmente quando uma das minhas amigas me advertiu de que correntes e barras na porta não eram um bom sinal.
          Mas eu era uma pessoa de fibra, que não me deixaria espantar tão facilmente. Além do mais, para que serviam os meus "knuckles" (nós dos dedos), senão para bater na porta até acordar o rapaz.
          Certo dia, cheguei a limpar o quarto dele, um quarto legal com boa mobília e bem decorado. Um pouco bagunçado e sujo, eu diria. Um verdadeiro desafio... Mas, o que pode alegrar mais uma faxineira do que um cômodo bem sujo, onde ela possa mostrar serviço?... Prometi a mim mesma que quando terminasse, o quarto seria outro. Comecei por limpar as persianas com a escovinha do "vacuum" (aspirador) para tirar a poeira antiga. Teriam elas sido abertas alguma vez? Eu jurava que não. De qualquer forma, ninguém poderia ver a poeira, vivendo como uma coruja, dormindo o dia inteiro. Limpei os abajures, os rodapés, até debaixo da cama... Uau, como alguém conseguia "esconder" tantas coisas debaixo da cama? Vídeos, revistas, um mundaréu de coisas... e coisas tão sujas... Eu tinha mais de trinta anos e nunca havia visto tanta coisa feia. Não que eu nunca tivesse visto uma publicacao de Hugh Hefner e outras. Mas o que eu estava vendo realmente era repugnante, especialmente uma série de fotos entituladas "Black on white" (Preto no branco), numa revista que abri. Por um momento, pensei que o rapaz não gostaria que eu fosse tão fundo na limpeza. Eu estava tonta... Decidi não tirar nada de debaixo da cama. Eu ficaria muito desconcertada se um dos rapazes me visse limpando todas aquelas coisas.
          Fui limpar o espelho da penteadeira. Lá, no canto superior do espelho, encontrei uma lista de "Things to do" (Coisas a fazer). Entre outras, lá estava: "Pray more, visit mom and dad more often" ( Orar mais, visitar o papai e a mamãe mais frequentemente). Meu coração se derreteu pelo rapaz.
Infelizmente, depois de algum tempo, meus toque-toques na porta parece que perderam o efeito. Eu tentava bater o mais forte possível, mas ninguém atendia. Esperei que ele me ligasse, mas não ligou. Liguei e deixei mensagem, sem resultado.
          Decidi, então, fazer a minha própria lista de "Things to do" (Coisas a fazer). A lista começava assim: "Pray more..." (Orar mais...)



O poder da oração

          Antônio Serafim sofreu um calafrio ao ver o carro da polícia com o sinal azul piscando atrás dele. De onde teria saído aquela viatura, que ele não percebera?
          "Tô frito", pensou. Estava atrasado para chegar ao local de trabalho; então cruzou no sinal amarelo, que ficou vermelho, enquanto estava atravessando.
Estacionou e pegou o documento do carro no porta-luvas.
          O guarda se aproximou e disse com voz solene: "O senhor sabe por que estou te parando?" Antônio nem se atreveu a responder, nem mesmo levantou os olhos. Apenas sacudiu a cabeça em sinal afirmativo. “Posso ver o documento do carro e a sua carteira de motorista, por favor?
          Com as mãos trêmulas, Antônio entregou o registro do carro e o único documento pessoal que tinha consigo, uma carteira internacional que tirara num despachante na Main Street, e que sabia, não tinha validade nenhuma, mas que no passado, havia sido aceita pelos policiais. Ou talvez, os guardas tivessem sido instruídos a ignorar o fato de que eram documentos falsos.
          O guarda pegou a carteira internacional e explicou-lhe que aquele documento não valia nada, então, estava dirigindo sem carteira. Além disto, era falso, o que configurava um crime ainda pior. Antônio fez sinal afirmativo novamente, a cabeça para explodir… A palavra crime não era uma `a qual estava acostumado. Sempre se prezara por ser uma pessoa trabalhadeira e honesta, como a maioria dos imigrantes que não tinham como tirar a carteira de motorista. Pelo retrovisor, acompanhou com aflição o guarda caminhando de volta para a viatura.
          A espera, enquanto o guarda acessava seus dados no computador, foi uma tortura para Antônio. Parecia que todas as pessoas que passavam, olhavam para ele. Pior é que sabia o que estava para lhe acontecer, quando o guarda acessasse seus records. Fora preso na travessia pelo México e não comparecera `a Corte. A mesma coisa acontecera com um primo dele, que havia sido preso por violações de trânsito e entregue para a Imigração, e consequentemente, deportado.
          Enquanto esperava, Antônio pegou o celular e ligou pra umas três pessoas conhecidas, e pediu pra que orassem por ele.
          Havia entrado numa igreja apenas uma vez desde que viera para os Estados Unidos, levado por um amigo que dissera que o melhor local pra se conseguir emprego era na igreja. Você espalha a notícia e rapidamente alguém te contrata ou te apresenta para outra pessoa. E realmente fora lá que conhecera alguém que lhe dera o seu primeiro emprego, na demolição. Antônio evoluíra bastante. Tornara-se um construtor e o seu negócio estava indo muito bem. Entretanto, ainda não se sentia preparado para voltar para o Brasil. A esposa e os filhos estavam lá e, todo mês, mandava dinheiro para eles.
          Antônio não orava há muitos anos. Mas fechou os olhos, respirou fundo e pediu com todo o ardor do coração que conseguiu reunir. “Senhor, por favor, me ajuda!”
Depois de um período, viu o guarda vindo de volta. Do canto do olho, podia ver uma multa na mão dele.
          “Mr. Serafim, o senhor está indo pra 34 Holland St, não é mesmo?”
          Antônio questionava se o guarda era um vidente. Ou poderia ser que só de olhar os documentos do carro dava pra saber das suas idas e vindas?"
          “Sim”, respondeu ainda de cabeça baixa.
          “Não está me reconhecendo, Tony? perguntou o guarda, enquanto tirava o quepe. Você está trabalhando na reforma da minha casa. Eu lhe dei uma multa de tráfego, mas não vou te entregar para a Imigração. Por favor, não deixe de comparecer `a Corte desta vez. Agora pode ir trabalhar, que já está atrasado. Encontramo-nos mais tarde, lá em casa, quando eu terminar o meu turno.
          Antônio respirou fundo, desta vez aliviado. Era como se uma pedra de muitas toneladas houvesse sido retirada das suas costas. Realmente, a sua sorte fora bem melhor do que a do seu primo e de milhares de outros.
          Antes de sair, baixou a cabeça e orou agradecendo a Deus porque tudo não passara de um grande susto e uma multa. Daquele dia em diante, esperaria o sinal verde nem que tivesse que perder todo o dia no tráfego, ou iria se levantar uma hora mais cedo pra chegar ao destino. E, certamente, procuraria uma igreja. E não deixaria as orações só pra hora do aperto...

 

Catch up on the ketchup

          Maria e o esposo Juvercino são imigrantes brasileiros que trabalham tomando conta de várias casas em Martha's Vinneyard, incluindo a casa onde moram o ano todo com os seus dois filhos. A casa pertence a uma senhora de Nova Iorque, a Senhora Brainner, que escreve biografias de gente famosa. No inverno não há muito a fazer, pois as casas estão desocupadas, mas no verão, Juvercino trabalha também na construção, então ambos estão muito ocupados.
          Alguns verões atrás, eles foram tomados de surpresa quando a dona da casa, a Senhora Brainner, que normalmente vem em julho, chegou algumas semanas mais cedo sem avisar, e a casa não estava pronta para recebê-la. Maria e o esposo haviam se atrasado nas tarefas da casa. A Senhora Brainner disse para Maria que ela tinha “a lot to catch up” (muito que colocar em dia) na limpeza da casa. Maria, apesar de viver nos Estados Unidos por vários anos, não entendeu tudo o que havia sido dito em inglês. Depois de ouvir todo o discurso, extraiu apenas uma coisa: “catch up”. Pensou consigo mesma que a patroa não estava sendo justa com ela. "Com tanta coisa pra eu fazer e a patroa ainda quer que eu faça ketchup..."
          Ligou para o celular do marido para ver o que o ele achava daquilo tudo. Juvercino foi categórico… "Se ela quer que cê faz ketchup, Maria, faz o ketchup. Num custa nada." Maria nunca havia feito ketchup na vida, nem tinha a receita de ketchup.... Mas o marido estava com razão, se o que a patroa queria era ketchup, ela iria fazer ketchup.
          Deixou as cadeiras da varanda que estava lavando e foi ao supermercado comprar três libras de tomates maduros. Mas quando estava lá, lembrou-se de que a patroa havia dito “a lot catch up”, e foi colocando mais tomates na sacola. Acabou indo para casa com seis libras.
          Depois de lavar os tomates, cortou-os em pedaços grandes e colocou numa panela, deixando ferver e cozinhar por uns quinze minutos. A seguir, bateu no liquidificador e coou a mistura para retirar as peles e sementes. Então, pegou o vidro de ketchup na geladeira para checar os ingredientes que vão no ketchup. Tomate, sal, vinagre, cebola em pó, corn syrup (um melado de milho que se chama "Karo" no Brasil) e temperos…Eles tinham corn syrup para panquecas, pó de cebola e vinagre e um monte de temperos na prateleira. O que ela não estava preparada para colocar no ketchup era o tempo que gastou mexendo aquela mistura aguacenta e espirradeira. Depois de uma hora, o molho ainda não havia engrossado. Nunca havia pensado nisto, mas ali mexendo, ela sentia uma gratidão imensa pelo vidro com rótulo vermelho de ketchup Heinz pronto pra usar, que comprava no supermercado.
          Será que a patroa agora iria querer tudo feito em casa? Imagine ter que fazer os pickles, a maionese e os pães frescos cada manhã…Seria demais pra ela.
          Por volta de uma da tarde, a patroa chegou da praia com os filhos, para encontrar as coisas por fazer, quase do mesmo jeito que deixara. As cadeiras que Maria estava lavando quando ela saíra, ainda estavam cheias de sabão. Entretanto, a casa cheirava muito bem. Um cheiro adocicado vinha da cozinha e Maria estava coberta de suor, mexendo uma panela no fogão.
          "Maria, o que é que você está fazendo?" "Estou fazendo Ketchup..." “Ketchup”? “Sim”, Maria respondeu timidamente. A patroa aproximou-se do fogão, deu uma olhada bem dentro da panela, com aquela mistura avermelhada, pegou um pouquinho com uma colher e colocou na boca. Estava delicioso, mas o de que ela precisava era que Maria terminasse a limpeza da casa… E abrindo a geladeira:
          "Maria, tem ketchup aqui na geladeira”, disse. Pegou a embalagem de plástico e entregou para ela.
          Agora Maria estava mais confusa do que nunca. A Senhora Brainner parecia ter gostado do ketchup mas de fato, não havia gostado.
          Depois que a patroa saiu balançando a cabeça e foi para o chuveiro tomar banho, Maria pegou o telefone e ligou para o marido novamente para dizer que fizera todo o possível para fazer o melhor ketchup, mas a Senhora Brainner não gostara.
          O marido, pensando que a esposa não havia caprichado o suficiente no ketchup, falou pra ela: "Maria, cê tem que praticar mais pra aprender a fazer um ketchup melhor."
          O que nenhum dos dois pensou é que Maria precisava de “catch up” (colocar em dia) as lições de inglês que abandonara porque estava muito ocupada.



“Ser Setentão"

          Minha prima Mariza estava com dezenove anos em 1987, longe de casa pela primeira vez em toda a sua vida. Havia vindo do Brasil dois meses depois de mim e estávamos morando nós duas mais uma garota chamada Ana. Não admira que criasse vínculos tão fortes com as pessoas para as quais trabalhava, como aquela judia idosa, a Senhora Baum, que emigrara da Europa Oriental e morava em Newtonville. A casa tinha dois apartamentos um do lado do outro, cada um com sala, cozinha, sala de televisão, dois quartos, um banheiro e um outro cômodo, que poderia ser um escritório ou um quarto, mas que, no apartamento dela, havia sido transformado em um segundo banheiro improvisado, sem vaso nem pia, apenas um chuveiro. O seu filho era epilético e era perigoso para ele usar a banheira.
          Mariza limpava a casa apenas uma vez por mês. A Senhora Baum tinha um aspirador de pó “self-propelled”, daqueles que andam para a frente e para trás sem serem empurrados (dos quais eu, particularmente, não gosto, mas Mariza gostava). Ela trabalhava para várias famílias ricas, que possuíam umas porcarias de aspiradores e disse para a Senhora Baum que o seu vacuum cleaner era muito bom. A mulher respondeu que não eram ricos o suficiente para se darem ao luxo de comprar eletrodomésticos de má qualidade.
          A Senhora Baum estava beirando os oitenta anos, mas continuava muito saudável e ativa. O filho, de uns quarenta e poucos, vivia com ela e trabalhava na Lord&Taylor, apesar da epilepsia. Raramente perdia um dia de trabalho; tomava remédio que controlava a doença. Era também diabético; a mãe cozinhava uma dieta especial para ele.
          Agora, as duas filhas casadas haviam obrigado a Sra. Baum a vender a casa, a fim de se mudar para uma nursing home. Então, ela ligou para Mariza e deixou três mensagens seguidas. Num sotaque carregado, a voz trêmula e rouca, pedia que a garota fosse lá, apesar de não ser o dia regular da limpeza.
          Mariza se apressa. A Senhora Baum precisava de ajuda para empacotar, colocar etiquetas nas roupas e objetos pessoais, selecionar o mínimo de coisas que iriam para o seu novo lar em Roslindale. Lágrimas corriam dos seus olhos inchados.
          Como poderiam as filhas fazer aquilo com ela? Afinal, ela e o marido haviam criado a família com dificuldade, sendo imigrantes, falando pouco inglês, trabalhando em serviços pesados, a fim de comprar uma casa numa boa vizinhança e dar-lhes uma boa educação…
           “A vida será muito sem graça sem cozinhar para o meu filho que aprecia tanto a minha comida e vai sentir muita falta...’, ela disse pra Mariza.
          A velha senhora trabalha devagarzinho no armário de roupas, colocando os vestidos de lado, como se estivesse tocando algo sagrado, descartando apenas uns poucos deles. A filha, uma mulher de feições duras, perto dos cinquenta anos, pega os que ela havia selecionado e grita: “Por que levar uma dúzia de vestidos, se três são suficientes? Além do mais, são velhos e só servem para o lixo…” Utensílios de cozinha? A mãe não precisaria de nenhum. Coloca tudo em caixas e sacos de lixo , para dar a instituições filantrópicas ou jogar fora. Toalhas de mesa, enfeites, vai tudo. “Não, este aqui eu quero…” a velha tenta sem sucesso resgatar alguns dos seus ítens favoritos, só para ter a filha tomando abruptamente de suas mãos. Quando o carteiro passa, oferece-lhe o cachorro, dizendo-lhe que precisa de uma boa família para tomar conta do animal.
          Mariza tenta amenizar a situação. “Pelo menos a senhora vai poder levar suas plantas.” “Não, minha filha, só posso levar três. Se você quiser, pode levar as outras para a sua casa.”
          A filha deseja apenas desocupar a casa o mais depressa possível, pois tem uma data para o closing, fechamento do negócio. Trata da situação com pulso e frieza, como se fosse um Oficial de Justiça, cumprindo um mandado na casa de estranhos.
          Ou, quem sabe, está mesmo preocupada que, em poucos anos, a mãe não será mais capaz de cuidar de si mesma, o irmão pela mesma forma. E, para eles, melhor mudar agora do que depois. Mariza, entretanto, pensa que ela está mesmo interessada só no dinheiro da venda da casa.
          “Eu gosto demais desta casa”, a Senhora Baum murmura, tendo o cuidado para que a filha não escute. “E o seu filho?” Mariza pergunta. “Ele também vai para uma instituicão especial. Você promete que vai me visitar?” “Claro que vou…”. A senhora está para lhe dar o novo endereço, mas a filha a repreende, dizendo que depois providencia isto. (Mas nunca o fez).
          Ao sair, Mariza diz para a Senhora Baum que não quer receber pelo trabalho daquele dia. As duas se abraçam, mas é um abraço curto, por medo de que a filha veja.
          Não muito longe dali, num prédio grande de pedras, na Unitarian Universalist Society of Newton, numa placa do lado de fora, onde sempre colocam uma frase interessante, estava escrito: “Being seventy is not a sin” (“Ser setentão não é pecado”).
          Talvez a frase fosse verdadeira para outras pessoas, ou mesmo para a Senhora Baum, depois que estivesse acostumada `a nova moradia e feito amigos lá. E para o filho também, já adaptado `a instituição especial para onde iria. Então, os dois poderiam concluir que aquela fora a melhor decisão para eles. Mas, pelo menos naquele dia, para a Sra. Baum, ser setentona parecia um pecado, e um pecado capital.


Notas:
Frases na placa em frente `a First Universalist Society of Newton, Massachusetts:
Dez/10/2010- “Sempre tente ser mais gentil do que o necessário.”
Abril/01/2011- “Nós vivemos do que ganhamos. Nós ganhamos vida pelo que damos.”

Copyright © 2013 Leonina Heringer
 
Leonina Fortunato Heringer was born in Brazil in 1953 and immigrated to the US in 1986. She is the author of "Contestado," a genre called String Literature, peculiar to the Northeast of Brazil, in which stories are written in verses and the brochures hung in strings in the streets. She also has participated in several anthologies of poetry, including "Poetas de Hoje", Editora Shogun Artes, Rio de Janeiro, in 1983; Vozes Submersas, a collection of poetry by poets of Portuguese speaking living in New England (from Portugal, Brazil, Mozambique, Angola and Cape Verde), published in Boston in 1990 and "City River of Voices" (with American poets), published in Cambridge in 1991.
For many years, she has  had a literary column in the Brazilian Times (Boston) in which she published famous poets, her own and reader’s poems. In addition she had a little corner called "Essa Vida Americana," a collection of immigrants experiences, mostly humorous stuff (many years before the starting of "This American Life" on NPR), which nowadays appears on “Bate Papo Magazine” (page 28)
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She has won several awards in Brazil and was the recipient of a "2005 Cultural Heritage Grant Award" of the Somerville Arts Council for her autobiographical stories: “At home away from home - How a lawyer and teacher became a housecleaner in the United States”.

She also has been participating in many community causes, although, unofficially because of her immigration status.  She is on the Board of Directors of Abundant Life Counseling Center, in Cambridge and has worked with the Somerville Board of Health in the campaign against bedbugs, including the production of an educational video about "Bedbugs" with other members of Greater Boston Bedbug Task Force, in collaboration with Somerville Community Access Television.

Her latest work is a childhood memoir called “Cidade dos Vagalumes," which is published on a blog: