Maria Clara Roques Esteves
 

Maria Clara Roque Esteves  has studied languages and literature both in Coimbra and Lisbon Universities, and also has a degree in Social Sciences, finished in 1973, Lisbon.  She has been writing poetry since she was fifteen years old, attending a high-school in Mozambique where she won school prizes for her work. She has been employed for 36 years on the Lisbon City Council, both as a Technician and Director.

                                                                                    
  
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O bailado das gaivotas


No caudal ensolarado do rio
dançam gaivotas
em bailado brando
suave, azul.
Também cantam, exultam
num rodopio sem mágoas,
numa melodia repetitiva.
e num ostensivo respeito pelos cânones
desenham um anel redondo, redondo,
tão de leve e ofuscante
que esqueço o sortilégio da maresia,
recolho-me muda, calma
e sustento-me
daquele tremendo compasso
que apenas eu ouvia.

Imagino que havia um sentimento singular na celebração das gaivotas....


(Março de 2010)



 


Crepúsculo
 

A Vida flui mansamente
como sol em terra molhada.
Há manhãs virgens
e tardes de horas desoladas.
Na nudez de uma cortina cerrada
vislumbro imagens gráceis ou promessas falsas.
Então,
saudosamente,
languidamente
procuro por entre os dedos
algumas confissões não impuras.
Amores com história,
com beleza.
Ao lusco-fusco,
consagrando o que foi breve,
choro-me sobre o meu ombro.
O meu amor não floriu,
mas o meu amor deu frutos.
E assim
a Vida não foi menos bela.
Hoje, meu é tudo o que a minha vista alcança.
Hoje a Vida ainda flui mansamente
como sol em terra molhada por chuvas doiradas.


(Fevereiro de 2010)






O tempo e o vento
 

No fundo verde do rio dos meus olhos,
numa brandura de vontade
o pensamento endoidece
e na agudeza dos sentidos
recua, recua peregrino.
Lá fora, entre os braços das videiras despidas
há cachos de gotas roxamente lânguidas.
A chuva cai doidamente
e o vento chora num desassossego sem fim.
Cá dentro eu aqueço-me na ternura das raízes,
baixo ainda mais a voz,
converto o furor do tempo em ternura magoada
e, obedecendo ao vento,
movo brandamente o pensamento
ao encontro do mar que bate longe.
Não há pássaros voando
porque no torpor do tempo o tempo
cai doce, calmo, puro, obedecido.


Figueira da Foz ( Março de 2010)

 



 

O tempo

 

Corpos perfeitos
como ondas circulantes,
expressão deslumbrada
imaginação ancorada
em imagens distantes.
Olhares sedutores
emoções projectadas,
corações a galope.
Antes que o sol volteie
damos a volta ao pensamento.
O Céu é nosso
o mar é nosso
e desflora-se o sexo
no marulhar das ondas
adoçando o sortilégio em cada noite...

Com o tempo
desamarramos a última canoa,
percorremos distâncias,
aprendemos a subir nuvens
e a pousar suavemente
em retalhos de doce verdura

( Fevereiro de 2010)





O tempo e o vento


Ontem, do outro lado do rio, num quase qualquer lugar, paredes meias com a dor, vislumbrei sinais de tentativas falhadas e cheiro a desespero. Hoje, do outro lado do rio, pressinto uma misteriosa fidelidade. Num gozo abstracto, sem certezas essenciais, numa eclosão de mim mesma, fala-se de tudo, fala-se com um saber quase esquecido, fala-se do que é e do que não é verificável.Fala-se das orquídeas em flor e da beleza da Madeira com uma densidade sublime na voz. Hoje, do outro lado do rio, sinto uma luz fresca, nova, respirável, quase tranquila.Talvez me engane, talvez confunda o gozo do abstracto em cada vestígio não reclamado nas rebuscas dos armários. Numa civilidade que procuro sublime, sem fazer sentir que o tempo é essencial e transparente, e que nada é mais extraordinário que o equilíbrio entre a estatura da alma e as rotundidades dos gestos em cada mão estendida. Chorou já contra o meu corpo, fiz-lhe festas nos cabelos e disse-lhe que o outro lado do rio é infinitamente bonito, de uma beleza não ilusória.  Do outro lado do rio as palavras correm, as imagens tomam forma, deixam pontos luminosos e, beberricando à noite uma chávena de chá, a mão adquire uma nova ordem nos gestos e a firmeza do traço parece alcançar a linha do horizonte. Cada partícula de chuva que cai preenche a quietude das palavras. E sem ritual a madrugada desperta a qualquer hora.


 

Copyright © 2010 Maria Clara Roques Esteves